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Dinâmicas Urbanas de Interfaces e de Tempos

Dinâmicas Urbanas de Interfaces e de Tempos é uma série de vídeos sobre cidades destinada a relatar visualmente relações espaciais e temporais entre pessoas, veículos, calçadas, ruas, fachadas, atividades, paisagens. São vídeos que convidam a uma perpepção holística da mobilidade urbana, das articulações físicas e sociais que se revelam nas ruas em movimento.

dinâmica - espaço em movimento FIS (…) estuda o comportamento dos corpos em movimento e a ação das forças que produzem ou modificam seus movimentos. 1 Técnica e conjunto de procedimentos que visam estabelecer um bom nível de interação entre os membros de um grupo de pessoas a fim de alcançar o seu maior rendimento num trabalho em conjunto. 2 Estudo de como funcionam os grupos humanos em ação e de como modificar o seu comportamento, tornando-os conscientes dos motivos de suas atitudes e interações. 
interface - corpo e espaço in.ter.fa.ce sf (inter+face) 1 Superfície, plana ou não, que forma um limite comum de dois corpos ou espaços. 
tempo - momento, turnos , movimento tem.po sm (lat tempu) 2 Uma época, um lapso de tempo futuro ou passado. 7 Ocasião própria para um determinado ato; ensejo, conjuntura, oportunidade. 17 Mec Quantidade de movimento de um corpo ou sistema de corpos, medida pelo movimento de outro corpo, supondo-se que os dois movimentos são proporcionais.

Neste post serão apresentados três vídeos. O primeiro [VÍDEO 1] é uma edição própria sobre um vídeo antigo da cidade de São Francisco, EUA, filmado quatro dias antes do terremoto de abril de 1906 por Miles Brothers. O vídeo original possui quase dez minutos e retrata um espaço público urbano ativo e alegre, com elementos e interações diversificadas, personagens autônomos e singulares. Os outros dois vídeos [VÍDEO 2 e VÍDEO 3] são produções próprias, gravados nas cidades de Zurique, na Suíça, e Salvador, no Brasil.

***Por causa de problemas na formatação, os três vídeos foram relocados para o final do texto.
Você pode preferir usar os links acima e assistir diretamente no YouTube.***

Como o vídeo de São Francisco, há outros relatos urbanos com diferentes perspectivas, mas objetivos semelhantes: o de registrar a dinâmica urbanas de determinado lugar em determinado tempo. Há o vídeo de Londres na década de virada do século XX e na sequência cronológica há o de Nova Iorque, em 1928, que inclui o automóvel de forma incisiva na cena urbana, fazendo uma espécie de paródia. Veio o tempo de os automóveis tomarem os espaços públicos de circulação e isso repercutiu nessa linha da produção cinematográfica também. No vídeo de Paris, 1976, uma câmera no parachoque de um carro correndo pela cidade vazia no finalzinho da madrugada tem um desfecho inesperado – como toda boa história parisiense, essa também inclui romance. Já em 1988, Nova Iorque novamente apresenta outro relato urbano, já com uma nova configuração espacial, uma mobilidade "modernizada". Curitiba, mais recentemente, também participa dos relatos cinematográficos com um documentário que inclui vislumbres urbanos de um tempo de mudanças. Além das cenas citadinas, há a parte didática que conta a história de um processo de reorganização das funções no espaço.

Estes relatos urbanos visuais, sobretudo o vídeo adaptado acima, serviu de inspiração para os dois vídeos que seguirão, de produção própria. Um deles é uma captura de uma rua comercial em Zurique, Suíça, na chegada do verão. O outro, de uma rua comercial da cidade do Salvador, Brasil. Ambos foram gravados em meados de 2012.

Neste trabalho não há um objetivo de comparação entre as duas realidades que se apresentam – mesmo sabendo que pensamentos comparativos podem ser inevitáveis. Contudo, melhor que comparar é somar as impressões de ambos e depois deixar os questionamentos fluírem.

Antes de chegar aos vídeos pode ser relevante saber como começou este projeto, além de conhecer um pouco da cidade estrangeira que terá aqui um pedacinho revelado: Zurique.

Uma visita a Zurique

Em junho de 2012 tive a oportunidade de conhecer Zurique, capital comercial da Suíça. Antes mesmo de comprar as passagens, fiz muitas pesquisas sobre a cidade na expectativa de não me ausentar de nada que pudesse me ser interessante. Uma das primeiras coisas que descobri foi que Zurique tem uma rua comercial famosa e muito ativa chamada Bahnhofstrasse – 1.4 km de dos mais variados tipo de comércio, desde mercados e lojas de departamentos a caras lojas de jóias, relógios e designers de moda, além de hotéis de luxo. O início da Bahnhofstrasse, como se diz, é a estação ferroviária, e, no outro extremo, a paisagem se abre em uma praça para o lago de Zurique.

Apesar de não ser a capital, Zurique é a maior cidade da Suíça. E mesmo com essa titulação, ela possui menos de quatrocentos mil habitantes. Algumas pesquisas a apontam como a cidade com a melhor qualidade de vida do mundo, bem como a mais rica da Europa. Zurique é um centro misto de ferrovias, estradas e tráfego aéreo; tanto seu aeroporto quanto sua estação ferroviária estão entre os maiores e mais movimentados do país. Lá o transporte público urbano também é muito popular. Seus habitantes o utilizam largamente e o consideram a melhor forma de se deslocar pela cidade. Sua rede de transportes públicos está classificada entre as de maior densidade e frequência em todo o mundo. Seja por bondes, ônibus elétricos, barcos, funiculares ou teleféricos, os bilhetes comprados para uma viagem são válidos em todos os meios de transporte. E tem o bilhete diário, para viagens ilimitadas dentro de determinada área num período de 24h.

Era esse o bilhete que eu pegava todos os dias; cinco e oitenta francos com desconto. Comprava em qualquer ponto numa maquininha touch screen, pegava meu troco, colocava tudo na bolsa e olhava para o poste com o mostrador eletrônico para ver quanto tempo faltava para o próximo bonde de número 10 (em direção ao centro). Quando marcava muito eram cinco minutos. Quase nunca precisei sentar nos banquinhos, porque a maioria das vezes era pegar o bilhete e o bonde já mostrava a carinha lá longe. No mostrador, conferia que era meu e ficava me balançando para disfarçar o impulso de esticar o braço para o motorista parar. O bilhete, em dez dias de muitas viagens, ninguém me pediu para ver. Dizem que há fiscais, e as vezes eles entram no bonde multando em oitenta francos espertinhos ou distraídos que não estejam com seu bilhete. Certamente há pagantes o suficiente para manter o sistema funcionando. E esse sistema é fundamental para a qualidade do transporte público, que se baseia inclusive na eficiência e rapidez nas paradas pela ausência de catracas e cobradores.

Pois bem... voltemos para a Bahnhofstrasse, a principal rua de Zurique. Antes de vê-la em pessoa, assisti alguns vídeos e vi muitas fotos dela. Por causa do status de ser uma das ruas mais caras do mundo, logo pensei também na Champs-Élysées. E por causa da aparente baguncinha de gente, bicicletas, bondes, carros, pensei na nossa Avenida Sete de Setembro, em seu trecho mais intrigante: entre a Casa d'Italia e a praça Castro Alves. Essa nossa rua sempre surpreende.

Por que? Porque se tem um lugar na cidade que o pedestre encontra alguma vez é nesta rua, na Avenida Sete. Nos cruzamentos das pequenas transversais são os pedestres que determinam quando os carros podem passar, ao contrário da lógica que rege o resto da cidade. No seu leito principal nem precisa emplacar limites de velocidade: o fluxo de pedestres vazando das estreitas calçadas e passando de um lado para o outro fazem com que os motoristas reduzam a velocidade para 30 km/h ou menos, espontaneamente – ou inevitavelmente.

Na nossa Avenida Sete o medo de pequenos furtos existe, como em qualquer lugar da nossa Salvador, mas durante o horário comercial – quando o lugar é pleno de atividades de portas abertas para a rua, com seus vigilantes naturais espiando o movimento de dentro das lojas – todos parecem caminhar suficientemente relaxados. Nenhuma barbaridade, como os estupros diurnos acobertados do loteamento Aquarius, bairro de muros, são esperados numa área com tanta vitalidade.

Assim também é a Bahnhofstrasse, como a Avenida Sete. Cheia de atividades e aberturas para a rua, cheia de pedestres e veículos inesperados. Nessa versão Suíça de uma rua viva, além dos improvisos típicos da nossa terra, chamam atenção carrinhos de bebês, skates, patinetes, cadeirantes, malas com rodinhas. Um piso contínuo e liso, sem degraus ou excesso de juntas, ajudam a tornar tudo possível. Salvador, em contraste, adora um batente para delimitar o espaço de quem ou quem. Nada feito para rodinhas pequenas ou para quem precisa delas para se locomover.

Na Suíça a chegada do inverno muda tudo. A neve toma as ruas e o movimento das pessoas provavelmente fica restrito à linha mais curta possível entre a porta do bonde e a porta do destino. Mas aqui, neste início de junho, a Bahnhofstrasse estava uma festa! Simplesmente sentar num dos banquinhos verdes perpendiculares ao fluxo da rua já fez uma tarde de sexta uma das experiências mais interessantes da minha estadia.

Observe como todo o espaço público da rua é usado pelos pedestres. De tempos em tempos – ou turnos – passa um bonde, e nesse pequeno período as pessoas deixam aquele espaço livre para o bonde passar. O bonde é o rei da rua! Não porque ele se imponha nem nada, pois até sua buzina sua gentil. Mas as pessoas o respeitam e o dão passagem porque sabem que seu horário é rigoroso, pontual, e elas gostam disso, elas consomem isso! Todas elas!

O bonde, além de não poluir e fazer pouco ruído, me mostrou na prática uma outra vantagem em relação a qualquer transporte sem trilhos: seu percurso é previsível. No chão da rua há duas linhas de paralelepípedos vermelhos escuros, uma de cada lado do limite do percurso máximo do bonde. Se você está fora dessas linhas, você está seguro. Simples. Assim cada pedacinho de espaço público urbano pode ser explorado com segurança.

Há carros? Sim, há carros no centro de Zurique. Mas nessa rua sua permeabilidade é bastante restrita. O semáforo permite periodicamente a entrada de carros em uma única faixa da rua, e o tempo é curto. É possível aos carros acessar as transversais e até estacionar, mas isso custa alguns bons francos. Em geral, as pessoas de lá não recomendam ir ao centro por este meio. É estresse certo. "De bonde é muito melhor!"

Há uma outra questão que me parece pouco explorada (e muito mal praticada) por nós soteropolitanos: a relação entre os espaços públicos e privados. Essa colaboração possível e necessária entre as atividades e fluxos de dentro e de fora. O contato visual, a permeabilidade, todo o discurso de Jane Jacobs que, infelizmente, parecemos fazer questão de não aplicar.

Já Zurique, parece que aplica. As lojas se debruçam sobre o espaço público, e ao mesmo tempo o espaço público parece ser propriedade de todos, pois todos cuidam um pouquinho dele. Paredões cegos? Edifícios estanques? Não vi!

As vitrines enfeitam a rua e as árvores retribuem sombreando as vitrines no verão e caducando no inverno para deixar o calor do sol entrar. O cheiro das confeitarias e cafeterias invadem a rua, assim como suas mesinhas e cadeiras. Há travessas que não passam carros, e estas viram praças vivas. Não praças sem utilidade como tantas que conheço. Mas praças de gente passando, acumuladas, sentadas, conversando, comendo qualquer coisa num balcão, tomando água de uma das inúmeras fontes potáveis.

Em Zurique, mesmo em ruas sem essa premissa comercial, as janelas, lojinhas e vitrines são uma contante. Uso misto sempre! Malha urbana para carros e também para pedestres: quadras que se abrem no meio para o pedestre passar, reduzindo distâncias. Exemplos de permeabilidade e conectividade que discutimos na teoria mas parecemos incapazes de projetar.

Salvador, como a Avenida Sete, tem também muitas qualidades. O ano todo a rua está disponível para quem quiser por ela passar e passear. Temos veículos inusitados, sim. Veja só o carrinho de mão expandido em uma quase caminhonete de papel reciclado movida a tração humana.

As interfaces aqui são bastante complexas, se interceptam demais ou se misturam simplesmente, de um jeito que só a gente entende. Os tempos, ou turnos, praticamente não existem. Todo o tempo o espaço é de qualquer um – pedestre, carro, moto –, o que pegar primeiro.

Por outro lado, há aspectos negativos que contribuem para não estarmos na lista das melhores cidades para se viver ou melhores sistemas de transportes do mundo. Os carros parados ocupam demasiadamente o espaço, quebram a fluidez visual entre os dois lados da rua, consomem o potencial das vitrines, limitam o espaço teórico do pedestre, poluem. No nosso caso, uma calçada destacada da rua pode até ser bom. Se não houvesse o batente alto, era capaz de os carros encostarem ou entraram nas lojas para resolver seus problemas em formato drive-thru.

Contudo, toda essa tentativa de separação – calçada, batente, vala, carros estacionados – trabalhando no limite, só induz as pessoas a romper de vez as barreiras e invadir o asfalto (aquele que achavam que deveria ser para os carros). E como chegam carros, apesar de os pedestres os retardarem tanto quanto possível. O esforço é válido, mas não foi suficiente ainda para uma mudança estrutural.

Os ônibus que passam pela avenida não são reis como os bondes de Zurique. Nem príncipes, coitados. Entram no bolo das interfaces complexas e dos turnos disputadíssimos, como todo mundo por aqui. O carro, pasme, também não é rei aqui não, apesar de ficar ocupando o espaço como se fosse. Ademais a bagunça, os pedestres aqui ainda possuem algum resquício de respeito, nem que seja um respeito forçado por falta de opção. Aquela coisa do "quem pegar primeiro". Pelo menos é mais democrático!

Reflexões

Se voltarmos no tempo, em 1906, São Francisco, depois de ver a Zurique e a Salvador de 2012... O que conquistamos desde então? O que aprendemos? O que teorizamos? O que escolhemos? O que colocamos em prática?

Quais estruturas espaciais criam a rua que queremos? Misturas ordenadas ou simplesmente misturas? Tempo de todos ou turnos eficientes? Quais interfaces e tempos trazem consigo a dinâmica urbana almejada?
Qualquer projetinho de arquitetura que tenha uma face para o logradouro já é passível de fazer urbanismo.

Vamos observar antes, conceber depois. As cidades são um laboratório vivo. Experimentos ruins já fizeram moda por aqui e até hoje sofremos. A arquitetura e o urbanismo insustentáveis, frutos de um modernismo retardado, de condomínios estanques e shoppings caixotes não devem mais existir. Não se deixe iludir por fachadas bonitas.

Se for projetar, por favor, projete em favor da vitalidade, da integração! OBSERVE ANTES, CONCEBA DEPOIS. Não vamos repetir os erros que do Iguatemi, onde (sabemos bem) carro é rei, ônibus é vilão, moto é problema e gente é obstáculo. E, sim, a solução para a gente-obstáculo é pré-moldada!

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Dinâmicas Urbanas de Interfaces e de Tempos é uma série de vídeos sobre a cidade em movimento. Capture cenas urbanas. Continue essa série! Além de servir de fonte de questionamentos, são registros de um lugar e um tempo que algum dia terão um valor inestimável, como o vídeo de São Francisco antes do terremoto de 1906. O tempo não pára, os relatos ficam.





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