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RICOS E POBRES, CADA QUAL EM SEU LUGAR

FICHAMENTO DO ARTIGO
RICOS E POBRES, CADA QUAL EM SEU LUGAR:
a desigualdade sócio-espacial na metrópole paulistana
CADERNO CRH, Salvador, v.22, n.55, p;135-149, jan/abr 2009


Nelson Baltrusis é sociólogo, Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Professor do Mestrado em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social da Universidade Católica do Salvador. Desenvolve pesquisa sobre o crescimento dos assentamentos informais e a comercialização de imóveis em favelas; coordena o Laboratório de Planejamento Municipal desenvolvendo pesquisa e capacitação de técnicos. Além da excelente atuação como professor, Baltrusis tem em seu currículo a direção de dois filmes, documentários, O Último Garimpo (1984) e O Afeto que se Enterra (1985), ambos premiados.


Maria Camila Loffredo D'Ottaviano possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (1994) ,mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (2002) e doutorado em Arquitetura e Urbanismo - Habitat pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (2008). Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo , com ênfase em Fundamentos de Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente nos seguintes temas: segregação espacial, exclusão social, globalização, desenho urbano, planejamento urbano.


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Publicado no Caderno CHR, número 55, no primeiro trimestre de 2009, o artigo apresenta dados e análises sobre a evolução de favelas e de condomínios horizontais fechados - exemplos de segregação e auto-segregação socioespaciais presentes em metrópoles brasileiras. O estudo de caso utilizado foi a cidade de São Paulo, que fica no estado com maior número de favelas do Brasil (dado de 2000). O texto se estrutura em três etapas: dados da história e evolução das favelas paulistanas; dados da história e evolução dos condomínios horizontais fechados paulistanos; análises.

Os autores consideram que a consolidação dos assentamentos informais reflete uma incapacidade do poder público em dar respostas à demanda da população, e que, apesar dos programas de reurbanização, o crescimento do número de favelas e dos favelados torna a questão cada vez mais complexa.

Através de mapas, gráficos e considerações pontuais, o trabalho leva a uma problematização maior acerca dessa nova forma de apropriação do espaço urbano, na qual não se segregam apenas os ricos e os pobres, mas “mesmo entre a população mais pobre, os grupos de melhor condição financeira se destacam do todo”, fazendo da cidade um mosaico de fragmentos sociais homogêneos e estanques, em várias classes, e forçadamente dissociados de seu entorno.

O exemplo de auto-segregação estudado no texto são os condomínios horizontais fechados da cidade de São Paulo. Verificou-se que esses empreendimentos – pelas suas características, como área útil por unidade – demonstram não mais representar uma forma de morar da classe alta. Para expressar o extremo da cultura da auto-segregação, os autores propõem um questionamento: se é a segurança o principal motivo para a escolha por essa forma de morar, “será que os moradores dos condomínios onde as unidades habitacionais têm trinta e cinco ou cinquenta metros quadrados possuem renda suficiente para pagar o aparato de segurança normalmente utilizado nos condomínios fechados (seguranças, guaritas, câmeras, cercas elétricas, alarmes, etc.)?”


Palavras-chave
favelas, condomínios fechados, segregação socioespacial

Frases significativas
"...uma parte da população mais rica se isola da cidade real e constrói seus espaços de moradia em condomínios e loteamentos fechados, renegando a função pública da cidade, fragmentando o espaço urbano e contribuindo para a consolidação da não-cidade." (p.136)
"O crescimento do número de favelas e da população favelada não pode ser explicado apenas pelo empobrecimento da população urbana brasileira. Ele tem a ver também com a própria forma como o espaço urbano se estrutura em nossas cidades, de forma fragmentada e segmentada, revelando a fragilidade do processo de produção do espaço urbano nas grandes cidades e expondo a vulnerabilidade das favelas na estrutura urbana." (p.137)
Aproximação com tema de dissertação: mobilidade urbana, polos geradores de viagens
Dois trechos do artigo fazem referência a questões de mobilidade, são eles:
“A concentração dos condomínios fechados está associada também à existência de estradas e avenidas que deem acesso rápido ao município-polo.” (p.143)
“Assim, as estradas formam verdadeiros eixos ao longo dos quais se concentram as favelas e os assentamentos ilegais nos municípios periféricos. A possibilidade de deslocamento e as atividades econômicas que esses eixos proporcionam (...) podem ser apontados como fatores relevantes para a atratividade desses assentamentos nas cidades entrecortadas por essas rodovias.” (p.140)
Pelas citações acima, retiradas do artigo, podemos perceber a relação entre uso do solo e os transportes. A partir de um artigo com discussões primariamente sociais, como a formação de loteamentos auto-segregados e o crescimento das favelas, pode-se encontrar elementos precursores de uma problemática que em parte nos soa muito mais técnica, que são as questões do transporte urbano.

A segregação socioespacial ilustrada a partir dessa configuração de massas homogênas e estanques no desenho da cidade, assim como a formação periferia-centro, são aspectos relevantes para compreender como lógicas culturais podem determinar a maneira de uma sociedade organizar seus espaços. E essa organização, que chamamos abreviadamente de uso do solo, se confirma como um fator determinante sobre a dinâmica dos deslocamentos e as alternativas possíveis dos meios de transporte.
 
Entretanto, não convém ignorar que o pensamento inverso também é verdadeiro: a inserção dos veículos rápidos na cena urbana interferiu definitivamente sobre a tipologia de ocupação e distribuição das funções na cidade.

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