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Análise Ambiental Urbana - Relatório de Campo

Para urbanistas, geógrafos e estudiosos do tema urbano, o trabalho de campo é fundamental para perceber a dimensão palpável, real, dos problemas da cidade. Muitas metodologias de pesquisa podem ser válidas - geoprocessamento e entrevistas, levantamentos quantitativos e qualitativos - mas nenhuma conclusão plena pode ser feita sem se colocar os olhos e, de preferência, os pés sobre o objeto de estudo: a rua, o bairro, a urbe.

No dia 28 de novembro de 2009, um sábado quente de quase-verão, a turma de mestrado da professora Neyde Gonçalves, formada por geógrafos, urbanistas, engenheiros e veterinária, saiu em um trabalho de campo pela Cidade do Salvador a fim de reconhecer alguns dos problemas urbanos abordados durante as aulas e artigos trabalhados no semestre.

Antes de começarmos nossa viagem, professora Neyde nos passou algumas informações sobre nossa cidade. Ela explicou que Salvador se situa sobre um planalto cristalino do período pré-cambriano. Na era secundária, o Mesozóico, essa área sofreu movimentos tectônicos muito fortes, o que configurou a escarpa que temos hoje na orla da Baía de Todos os Santos. Neyde falou em horst e graben, conceitos familiares para os geógrafos, mas bastante remotos para mim e provavelmente também para outros colegas.



Para acompanhar o retalo com as fotos, clique aqui.

Saímos do Campus de Ondina da UFBA em direção ao subúrbio. Passamos por Barra, Vitória, Campo Grande, Avenida Contorno, Calçada. Nesse trecho, a característica natural do terreno que chamou mais atenção foi o relevo - a escarpa de falha, como nos explicou a professora, acrescentando que a ocupação da cidade começou nos topos (espigões), como uma boa cidade-fortaleza; assim Salvador ficava mais protegida e vigilante contra invasões. Os vales, mais úmidos, eram ocupados por hortas.

Por volta de 1960-70, a cidade passou a ocupar os vales com a construção de grandes avenidas, seguindo parte do que Mário Leal Ferreira propunha no EPUCS, começando pela Avenida Centenário, na Barra. Outras avenidas de vale caracterizam a cidade e ficam marcadas pelo elevado fluxo de veículos e frequentes congetionamentos. São exemplos de avenida de vale em Salvador a Avenida Reitor Miguel Calmon (Vale do Canela), a Vasco da Gama, a Lucaia, a ACM etc.

Em virtude do relevo de morros, vales e topos, professora Neyde nos chamou atenção para o que está entre esses dois terrenos, que  muitas vezes é cenário de tragédias, um palco de grande problema na nossa cidade: as encostas. De fato, o que pudemos observar sobre as encostas é que a maioria delas é ocupada por habitação de baixa renda e qualidade, sem planejamento, sem um sistema construtivo adequado ou sistema de drenagem. Portanto, em uma cidade com chuvas torrenciais como é Salvador, essa tipologia não convém. A questão é que, se as áreas remanescentes da especulação imobiliária são justamente os terrenos mais complicados, e com a expansão urbana tendo se dado da maneira expontânea e veloz que se deu, como poderia a administração pública intervir de maneira a reservar terrenos melhores para a população mais pobre ou trabalhar a cultura construtiva a fim de semear construções mais adaptadas a terrenos íngremes?

Dentro da minha área de pesquisa - mobilidade urbana - vejo que a topografia é também um fator complicador para o sistema viário, especialmente para a viabilização de projetos direcionados a modos não motorizados de transporte.

Continuando a viagem, passamos pela Ribeira e Bonfim e seguimos cruzando o norte do miolo de Salvador, pegando a BA-528 para chegar a Valéria, em busca da Lagoa da Paixão, que infelizmente não conseguimos chegar a ver. Abaixo, pra compensar um pouquinho, ela pode ser vista na foto aérea e ligeiramente nos vídeos sobre a ocupação de sua borda pelo MST.


Exibir mapa ampliado

Clique para ver vídeos relacionados à Lagoa da Paixão.

Em seguida passamos por bairros do "miolo" de Salvador que representavam um misto de áreas verdes, encostas barrentas e casinhas no tijolo, com eventuais conjuntos habitacionais.



Chegando ao lado leste do miolo, alcançamos a Avenida Paralela com seus condomínios residenciais auto-segregados ora típicos da classe alta, mas que hoje atinge também a classe média - que muitas vezes compra esse "modo de vida" sem perceber o impacto social da opção que estão fazendo.

O que podemos perceber nos extremos da tipologia habitacional - a invasão nas encostas e os condomínios luxuosos "enclavados" - é que ambos estão carentes de cidadania. Ambos não disfrutam plenamente do tão anunciado direito à cidade. Uns porque parece que o direito não chega a eles, outros porque rejeitam - meio por ingenuidade, meio por prepotência - esse direito, e acabam transitando apenas das suas "áreas privativas" para seus automóveis e vice-versa, preferindo caminhar sem sair do lugar em esteiras de academia do que por os pés na cidade e percorrê-la.

Outras questões pertinentes à dicotomia do ambiente natural x ambiente contruído que vimos na prática foi o tema do desmatamento provocado pelo Alphaville e Greenville, que resultou no aparecimento de vetores de doença como o inseto barbeiro. De fato, a área da intervenção é enorme e o que resta no entorno de mata atlântica testemunha uma vegetação antiga e variada. É triste ver que no confrontamento entre as boas práticas de política urbana e ambiental e o dinheiro, na nossa cidade, são sempre as boas práticas que saem perdendo, e a população por tabela.

Como toda história que se preze, depois das mazelas, lá no final, chega a esperança. E a minha esperança, trazendo um olhar do arquiteto, está no traçado e no paralelismo de tipologias. Por hora deixando em um plano, que sei não sei, secundário, as questões administrativas de uma mudança, penso nas encostas que temos e nas encostas que poderíamos ter.

Com um olho cá e outro lá, na Europa, temos o exemplos de Positano, na costa Italiana, e da cidade de Oia, na ilha de Santorini, Grécia, que se estruturam no rosto de encostas. Há uma consideravel diferença que é o fato de essas encostas serem de rochas, sim, mas podemos começar a pensar que é possível! Escadas dignas interligam as ruas, ou vielas, que são sempre pavimentadas e muitas vezes enfeitadas de plantas cuidadas pelos próprios moradores. A iluminação é presa na fachada das casas e  animais ou veículos pequenos ajudam no transporte de materiais e de pessoas com mais dificuldade de locomoção. Temos que falar em sistema de drenagem e em fundação, em educação e em todas as enésimas questões pertinentes ao tema, mas é importante ver que em encostas também se criam espaços urbanos e não limitar nossa criatividade aos padrões que vemos todos os dias.

As imagens são para inspirar!








Positano, Itália. (ver créditos das fotos)







Oia, Santorini, Grécia. (ver créditos das fotos)


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