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De que forma poderíamos alcançar um modo de vida mais sustentável?

Artigo para a disciplina Transportes, Cidades e Sustentabilidade, do programa do Mestrado em Engenharia Ambiental Urbana da UFBA - Profª Dra. Ilce Marília D. P. Freitas - Salvador, agosto de 2009. Equipe: Denise Vaz e Joana D'Arc

Primeiro, o que é sustentável? Porque nem mesmo o discurso da sustentabilidade tem se sustentado por si só, em meio a tantos interesses econômicos que rondam essa palavra. E mesmo quando a intenção é boa, seria uma responsabilidade imensa afirmar que algo é sustentável, em absoluto, já que é praticamente impossível viver sem interferir, e qualquer interferência é passível de se tornar uma ameaça ao equilíbrio, seja por sua intensidade momentânea ou por sua duradoura sutileza.

Os conceitos de sustentabilidade vêm de muitas fontes - desde as publicações acadêmicas, passando pelas tirinhas de revistas dando dicas de como ser mais sustentável no escritório, por exemplo, até os conteúdos divulgados por empresas que se apresentam com programas de sustentabilidade. Sem rodeios, o termo sustentabilidade está descaradamente na moda. Não que ele não devesse estar, pois os problemas são reais e está claro que há princípios nessa economia e sociedade que precisam ser repensados. Mas a palavra sustentabilidade já está tão banalizada e mal aplicada que ficou difícil encontrar os bons atores dentro desse teatro. Chegamos num ponto em que é preciso estar atento para avaliar quem está realmente incomodado com as possíveis consequências de nossa imprudente existência e quem está usando floreios “insustentáveis” apenas como jargão de marketing. Então, para começar a pensar num modo de vida mais sustentável, antes de mais nada, é necessário fazer um trabalho seletivo, de verificação da autenticidade dos discursos.

Se hoje o discurso da sustentabilidade é obrigatório até quando não há verdade, um dia essas questões não fizeram nem parte do pensamento. Sustentabilidade, como substantivo, veio do adjetivo atribuído a desenvolvimento, algumas décadas atrás. Renato Caporali, em seu texto Do Desenvolvimento Econômico ao Desenvolvimento Sustentável, de 1997, descreve que o conceito de desenvolvimento econômico surgiu a partir do final da Segunda Guerra Mundial, mas apenas na década de 70 é que nasceu a concepção do desenvolvimento sustentável. Antes disso, a economia era pautada na idéia de que os recursos naturais eram inesgotáveis. Com a superelevação dos preços do petróleo ocorrida durante uma guerra no Oriente Médio, veio um grande impacto na economia mundial - notadamente nos países desenvolvidos – que levou a uma reavaliação dos processos de desenvolvimento.

Foladori e Tomasino destacam dois tipos de preocupação a respeito do desenvolvimento sustentável – uma estritamente ecológica, ligada à depredação dos recursos naturais, aumento da poluição e à perda de valores ecológicos, e outra social, ligada ao tema da pobreza. No entender deles, a sustentabilidade social interessa só enquanto gera sustentabilidade ecológica e não por si só. Mas há ainda os que consideram que a sustentabilidade social é de interesse por si só, enquanto o desenvolvimento humano é uma co-evolução entre a sociedade e a natureza, que não podem ser dissociadas. Já Pedro Jacobi, em seu texto Meio Ambiente e Sustentabilidade, sugere uma ampliação do alcance conceitual para a sustentabilidade, atribuindo a ela cinco dimensões:

A partir da conferência de Estocolmo foi introduzido o conceito de ecodesenvolvimento, tendo como pressuposto a existência de cinco dimensões: social, econômica, ecológica, espacial e cultural. Esses pressupostos e outras formulações desenvolvidas nos anos de 1970 conseguiram inserir o tema ambiental nos esquemas tradicionais de desenvolvimento econômico prevalecentes na América Latina e a partir deles houve um avanço na adoção de políticas ambientais mais estruturadas e consistentes.
(Pedro Jacobi, em Meio Ambiente e Sustentabilidade.)

Até algum ponto da história, o desenvolvimento sustentável parecia uma questão particularmente econômica e política, mas com o estremecer da questão aquecimento global, o tema da sustentabilidade passou a dizer respeito a todos - toda a humanidade está submissa às consequências provocadas pelo efeito estufa. A constatação deste fato configura um problema global, que por ser capaz de atingir todos, a todos também convida a pensar e agir em busca de uma solução.

Mas por que parece tão difícil adotar um novo modelo de desenvolvimento e um estilo de vida com novas prioridades? Há uma certa resistência permanente a essa mudança, mas por quê? Por ora, será que poderíamos chamar esse impasse de capital? Afinal, é o capital que precisa se desenvolver e é nesse desenvolvimento que se consomem os valores naturais do planeta; na busca do capital é que se pratica a insustentabilidade. Então como barrar esse processo?

Primeiro se faz necessária uma reforma dos princípios nas entidades que mobilizam o capital - quem lucra. Abaixo dele está representada a mídia, a publicidade, que promove a idéia da necessidade de consumo. Em seguida podemos colocar a sociedade, com um usual comportamento passivo, de aceitação. Em algum lugar precisa entrar o governo. E aí, onde ele estaria? Parece variável, mas nesse caso de interesse de todos, parece que o governo deveria ser onipresente. Mas pelo contrário, a maioria das vezes ele é apenas conivente, porque infelizmente ele firmou suas estruturas na mesma base das indústrias, do comércio, que é a economia de consumo, e assim acabou submisso a todos os níveis desse sistema.

Então não parece real a idéia de esperar que empresas e governo tomem as rédeas de um novo modelo de desenvolvimento que desestimule o consumo, ou que a mídia e suas propagandas parem então de dizer “compre” e digam “comprem menos, por favor”, para enfim chegar a vez da população que, nesse caso, apenas seguiria a nova regra. O movimento não é possível, ou pelo menos não é provável, neste sentido. Os interesses econômicos estão muito fortes, entroncados, e alimentam sua estrutura pelos ramos de um mercado consumidor hiperativo. Mas, assim como um bonsai - que se cortarmos os raminhos da raiz a árvore míngua – é esse sistema. Se as pequenas raizinhas (cada pessoa, cada família) parar ou reduzir sua parcela de consumo, a árvore do capitalismo se enfraquece. E essa árvore, em particular, não precisa mais crescer, pois ela precisa dar lugar a outros tipos de árvores – inclusive a árvores de fato.

Não se pode esperar apenas que as atitudes venham de cima, de onde estão os poderes administrativos e econômicos. Em breve, o “ser sustentável” será inevitável para a humanidade, e se aderirmos ao consumo consciente e nos tornarmos imunes à mídia, esse novo comportamento forçará uma reforma nos padrões de consumo, de comércio e nas prioridades das indústrias. Podemos assim, talvez, inverter a ordem hierárquica do poder sobre o consumo e sobre as formas de desenvolvimento.

Conscientes de que atitudes individuais são de total importância para a harmonia do planeta, cada um pode e deve decidir por se posicionar em favor da causa global, fazendo sua pequena parte. Mudando a forma de pensar e agir, cada pessoa se faz um ser atuante na sociedade, capaz de influenciar outras pessoas, como em uma rede de comunicações ou uma onda que se propaga.

Referências

JACOBI, Pedro - O complexo desafio da sustentabilidade
FOLADORI, Guillermo; TOMMASINO, Humberto - Controversias sobre sustentabilidad
CAPORALI, Renato - Do Desenvolvimento Econômico ao Desenvolvimento Sustentável
CAPRA, Fritjof - Uma ciência para a vida sustentável
CARTA DAS RESPONSABILIDADES “VAMOS CUIDAR DO BRASIL” http://www.sed.ms.gov.br/index.php?templat=vis&site=98&id_comp=284&id_reg=244&voltar=lista&site_reg=98&id_comp_orig=284

Outras referências

MANZINI, E.; VEZZOLI, C. - Desenvolvimento de produtos sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais. Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005

DICAS PARA UMA VIDA SUSTENTÁVEL
http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4310.shtml

http://vidasustentavel.com

http://www.itaipu.gov.br/vcab/files/arquivos/carta_pacto_iv_cab.pdf

http://www.idhea.com.br/mododevida.asp

http://www.akatu.org.br/interatividades/forum/o-que-torna-certas-pessoas-indiferentes-as-consequencias-negativas-do-consumo-superfluo/

2 comentários:

Luana Ruck disse...

Oi Denise, tudo bem?? Estou fazendo um artigo sobre sustentabilidade, meu tema principal vai ser o Ecodesign que tem tudo a ver e gostaria da tua autorazição para utilizar imagens do teu blog e alguns textos, parabéns pela iniciativa, adorei o blog. Posso comentar sobre ele no meu Artigo???
Já sou tua seguidora. Parabéns mesmo.
Abração.

mario disse...

Sustentabilidade, como tenho comentado nos casos de projetos rodoviários, precisam ser concebidos desde o inicio como projetos ambientais. Infelizmente, não é o que acontece, e transforma-se numa batalha de minimizações, compensações e outras invenções de especialistas em aprovações ambientais - um mero comércio - que ficam nas promessas, cheios de obras com passivos ambientais...que prescrevem, pelo jeito!
Com meus textos em www.qualidadeurbana.blogspot.com contribuo modestamente para a melhoria das nossas cidades.