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Perceber sem ver

Na aula de ontem fizemos, com a turma do Ateliê V, um exercício de percepção do ambiente urbano usando outras escutas que não a visão. Formamos duplas e alternamos os papéis de cego e guia. O percurso começou na Faculdade de Arquitetura, descendo as escadas para Geociências, seguindo para a saída/entrada principal do Campus de Ondina. Saimos do Campus e seguimos pela calçada até um local para trocar de papel e beber água, numa rua próxima. Meu percurso vendada foi este primeiro, pelo Campus e pegando um pequeno trecho da cidade extra campus. Em seguida foi minha vez de ser guia, subimos uma escada - anteriormente desconhecida por mim - que liga Ondina a São Lázaro. Passamos pela igreja, Faculdade de Filosofia, paredões de pedra, Politécnica, voltando a Arquitetura. Falamos um pouco em sala sobre a experiência, mas ficamos de registrar nossas percepções no nosso diário de bordo. O meu, no caso, este blog.

Vamos lá! Algumas coisas que percebi no papel da pessoa que não vê.

- O primeiro ponto foi a manutenção das calçadas e escadas.
- Segundo, a ausência de códigos táteis de advertência no piso: degrau logo à frente; cuidado: meio-fio à esquerda etc. Só não me esborrachei porque tinha uma guia pra me dizer o que estava por vir, pois se eu estivesse sozinha ou minha dupla ficasse calada, eu estaria frita!
- Terceiro: placas e postes no meio da calçada. É, principalmente as placas! Elas parecem estar lá dizendo ei, vem cá, mete a cara ni mim! Puxa, isso é perigoso! Além do suporte cilíndrico muitas vezes estar estrategicamente posicionado, a placa me pareceu baixa - numa altura que uma pessoa mais alta possa dar um encontrão mesmo.
- Falta de corrimãos e guarda-corpos... Ah, nem vou comentar isso!
- Escadas com degraus não uniformes são uma armadilha. Nunca levei tão a sério essa questão, mas depois das quase quedas na hora de descer um espelho mais alto que os outros a perfeição métrica de minhas escadas será algo por que zelar sempre!
- Piquetes para não estacionar o carro na calçada devem ser mais altos, pois se estão abaixo da linha do joelho é muito fácil tropeçar e cair. Se fossem mais altos, ainda haveria o risco de se bater, mas estaria servindo como guarda-corpo ao mesmo tempo.

Essas foram minhas críticas diretas. Mas há as percepções mais sutis, como a apuração da audição e o uso desta como parâmetro para movimentação. Vi muita gente se esbarrando com pessoas na frente, mas acredito que com um pouco mais de experiência no papel de cego isso é algo facilmente evitável. Muitas vezes é possível perceber a presença de pessoas próximas - pelo som dos passos ou das vozes, pela mudança na iluminação, pelo calor. Assim também, porém mais sutil, é possível perceber algumas vezes a presença de uma barreira (como um muro) ao lado. Nessa situação achei que o som foi o principal fator de identificação do corpo externo. Quando estamos num espaço aberto conseguirmos ouvir - em stereo - sons diferentes de cada lado. Quando há uma parede parece que o som deste lado fica abafado e reproduz o som do lado vazado. Complicou? Faz a experiência. Em um lugar com certo barulho vá lentamente andando de lado em direção a uma parede. Vc consegue perceber quando ela está muito próxima e até evitar se bater. (Se levou isso a sério, comente suas percepções pra gente!) =)

Hum... mais uma coisa, e que me incomodou muito, foi quando nos concentramos para sair. Havia muita gente falando alto ao meu redor. Com os olhos vendados o barulho parecia muito maior e me senti como sem ter para onde ir, sensação de claustrofobia!

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