Páginas

Sensibilização - Incêndio se apaga no projeto [12dez2015]

O Movimento "Incêndio se Apaga no Projeto!", com o apoio da Fundação Escola Politécnica da Bahia, lançou o Curso Preparatório "Condições de Segurança Contra Incêndios (Projetos e Obras)" com o objetivo de preparar e selecionar estudantes das engenharias e arquitetura/urbanismo para o programa de fomento à prevenção de incêndios e apoio ao desenvolvimento institucional do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA). Serão até 10 (dez) vagas com bolsa mensal de R$1.000,00 (mil reais) para 30 (trinta) horas/semana.

A participação no curso (que é independente e aberta para qualquer interessado) demandou por um investimento de R$100,00 (cem reais). Aqueles que participaram da Oficina "Incêndio se Apaga no Projeto", dia 26/09 na FAU, ou da SEC (Semana de Engenharia Civil), de 01 a 03/12/2015 na EPUFBa, tiveram desconto de 50% na inscrição. 

Curso: 12/12/2015 (sábado), 08 às 17h.
Entrevista/Prova: 19/12/2015 (sábado), 08 às 12h. 

Local: Faculdade de Arquitetura UFBA, Auditório Mastaba.

Veja as fotos do evento.



O curso começou com a apresentação do arquiteto Manoel Altivo da Luz Neto, entusiasta da área, especialista em Arquitetura do Sistema de Saúde e Prevenção Contra Incêndios.
Duas observações: a partir de 2014, bombeiros da Bahia não são mais polícia, eles estavam ligados desde 1984; e este curso é para dois propósitos: selecionar para o estágio, e convidar à adesão ao movimento Incêndio se apaga no projeto. Vocês estão hoje entrando num processo revolucionário.
Foi inciada conferência via skype com engenheiro Carlos Cotta, de São Paulo,  atuante desde a década de 1990.  Além de projetar, calcular, ele executa.y
A capacitação profissional é um grande problema que enfrentamos na segurança contra o incêndio. Infelizmente o tema só veio ganhar mais visibilidade e empenho depois do acidente da tragédia da boate Kiss. A capacitação é muito importante para o tema e tem que estar alinhada nas faculdades. E a área de proteção contra o incêndio afeta várias áreas, como arquitetura, civil, químico, psicólogo etc.
Cotta parabenizou a iniciativa da Faculdade de Arquitetura e falou que a Bahia está com legislação nova, com base no que foi feito em São Paulo. Mas a mudança só ocorrerá se os profissionais colocarem a mão na massa para poder ajustar essas necessidades.
É muito desconfortável receber projetos completamente errados e dizer para o cliente que ele terá que desembolsar 5-25 milhões para adequar. Só faz um bom projeto quem é capacitado, quem se preocupou com a capacitação. Quem começar a se empenhar, se aprimorar na área de segurança contra o incêndio, cada um na sua área, certamente daqui a 2-5 anos no máximo continuará apaixonado - como nós - e terá uma oportunidade de negócio frutífera.
Depois de aposentado há 5 anos, eu não corro atrás de clientes. Precisa de muito empenho e dedicação, mas a recompensa é gratificante. Temos cursos de capacitação no ano que vem, pois queremos contribuir e compartilhar conhecimento. Quem não compartilha conhecimento não tem porque estar aqui no planeta Terra. A questão da capacitação profissional é a tônica e nos colocamos a disposição.
Eu sempre falo nas minhas palestras que segurança contra incêndio é uma especialidade que visa o cuidado com o ser humano. Trabalhar com segurança contra incêndio é divino e o profissional que não considera isto está cometendo uma agressão ao ser humano, um sacrilégio. Quando eu projeto, eu tenho que pensar que seres humanos estarão utilizando aquela edificação. Aquelas pessoas deverão ser protegidas. Poderá ser sua mãe, seu pai, seu filho utilizando aquela edificação. Todo mundo tem que vestir esta camisa, colocar a faca nos dentes e sair a campo. O que está sendo feito na Bahia é inédito e não pode ser diferente. As coisas precisam funcionar, não pode continuar cada um no seu canto.
O tenente-coronel Antônio Júlio Nascimento Silva (?) fez uma pequena fala. - Este momento é um momento de mudança. Os próximos mil anos de projeto começam aqui. Precisamos colocar a faca nos dentes para sair da inércia que nos encontramos hoje. - E adicionou. - Este evento tem o apoio da Universidade Federal da Bahia, o reitor tem conhecimento deste processo.

Altino ressaltou que o que se quer aqui é começar esse processo de capacitação, vincular estagiários a profissionais para formar duplas de trabalho. Quer também criar um MBA em prevenção e combate a incêndio que poderá ser aproveitado mesmo quando feito antes da graduação.

A questão não é se incendiar, é quando incendiar. O Instituto de Química pegou fogo e foram abaixo anos de pesquisa. Incêndio se apaga no projeto. O edifício Joelma diz alguma coia pra vocês? A boate Kiss diz alguma coisa pra vocês?

O tenente-coronel falou do Cel. Francisco Luiz Telles de Macêdo (Comandante Geral da Bahia) que está com o bastão de irá nortear o futuro dos bombeiros na Bahia. Ele quer tornar os bombeiros da Bahia o maior do Brasil.
Vocês sabiam que o incêndio da Chapada Diamantina é provocado pelos nativos? Os bombeiros daqui estão lá, já saíram acidentados, e ainda não conseguiram estancar.
O comandante daqui é um engenheiro químico. Toda ocorrência de bombeiro é tecnológica. Lembra do acidente da mina no Chile? Foram buscar tecnologia da Nasa para resgatar os trabalhadores. Tem que ter conhecimento de física, de química,... Tudo que tem a ver com bombeiro, tem a ver com tecnologia. 
Estou convidando vocês agora para fazer parte da família do corpo de bombeiros, esse criança neonata que precisamos fortalecer.
Ele continuou sua apresentação trazendo um pouco de história da cidade de Salvador, como a aglomeração e verticalização, a motorização, aumentaram e deveriam ter puxado proporcionalmente a capacidade de resposta  dos bombeiros.
Precisamos pensar em um projeto para resistir 100 anos. O material que estou aplicando tem qualidade? Todo material precisa estar certificado!
O efetivo dos bombeiros é hoje de 2175 pessoas - e deve reduzir em abril, porém deveria ter 14000. 1 bombeiro para cada 1000 habitantes. São 1 para cada 8000! Brasília tem 1 para cada 400 pessoas!
No slide:

  • Código de incêndio: Lei 12.929/2013.
  • Decreto 16.302/2015.
  • Instruções Técnicas (IT) estão sendo produzidas.

O que é que me garante que no projeto esteja previsto que terei aguá la em cima de um prédio? Pela válvula de recalque, para fazer uma coluna d'água pressurizada. A reserva técnica permite apenas um primeiro combate, mas não o garante. O bombeiro chega e, as vezes, esta água está exaurida por mal uso da população do prédio. Precisa da coluna de recalque e precisa garantir pressão no último pavimento. Precisa ainda ter a válvula de retenção lá em cima para garantir que ela não estava vazando, precisa estar mantida a pressão.
Precisa ter um sistema de detecção bem instalado. A fumaça não pode passar pela detecção. Precisa estar no ponto mais lto possível, para aumentar a capacidade de detectar o incêndio no local.
É na construção que a gente dá a capacidade de combate a incêndio do prédio.
No Japão, o bombeiro acompanha o projeto desde a fundação, pq ele vai fazer parte daquele projeto um dia. Se eu não conhecer todas as edificações que estão na nossa cidade, eu não consigo combater. A planta precisa, inclusive, estar na portaria mostrando os melhores acessos e sistemas de combate do prédio.
Não pe boneco que vai entrar nos nossos prédios. É gente! O projeto não pode ser meia boca. A hidráulica, a elétrica, os materiais, não podem ser meia boca. Mas e a economia? (alguém) Economizou na bitola da fiação e queimou o prédio inteiro.
Mostrou vídeo do incêndio de um edifício no Brasil, o Edifício Joelma. Mostrou fotos do incêndio no Edifício Andorinha, na Boate Kiss e na Boate The Station (Rhode Island, EUA), em 2003.

VÍDEOS
https://youtu.be/-XbgbjYkX34
https://youtu.be/H9NXCwSFKpE
Quem são os culpados? Todos são culpados, o arquiteto do projetinho, quem autorizou o projeto, quem autorizou, quem brincou com o fogo. Os materiais de revestimento, as estruturas da madeira, causam esta fumaça tóxica. * Atenção, pois as vezes a fiação da rua impede aproximação do carro de bombeiros.
O corpo de bombeiro precisa:

  • Ampliar prevenção e capacidade de resposta nas Normas Técnicas
  • Aumentar a Fiscalização (precisa de pessoal)
  • Mais unidades operacionais
  • Melhor distribuição do território e aparelhamento.

Para que a gente possa realizar isto, precisamos capacitar, buscar parcerias com vocês e com os empresários. Para trabalhar em incêndio o homem precisa atuar não só como um técnico, ele tem que ter valores morais, éticos e até religiosos. 
A tecnologia está ajudando bastante. Os drones estão sendo usados para monitorar focos de mosquito, para levar bóia para uma vítima no mar etc. A gente vai ter que criar um centro de perícia, centro de simulação de emergência e resgate... Precisamos trabalhar com pesquisa, e é por isto que estamos aqui. 
Temos esta vontade de nos tornarmos referência. Para isto vamos precisar nos unir, sobretudo as universidades, para ampliar esta família de um novo pensar, dos novos bombeiros. Isto não é um problema do estado, não é problema de governo (temos que parar de colocar a culpa no governo). Nós precisamos evitar uma nova Boate Kiss, por mobilização da população, e da academia - que tem uma força muito grande para transformar este cenário. 
Ficamos a disposição para dar continuidade e agradeço a professor Manoel Altivo.
Palestra Carlos, arquiteto, que desde jovem foi para a Petrobrás e recebeu a missão de preparará-la para o combate ao incêndio.
Temos que exercitar a capacidade de vocês para o correto atendimento às normas. Alguém perguntou (eu) de onde vem esta fumaça. Elas vem da queima de polímeros tóxicos. Há muito uso de isopor na construção hoje nas chamadas lajes nervuradas onde o preenchimento se faz com isopor. E ai tem uma divulgação no mercado de que o isopor não é combustível. No entanto, ele, no meio de um incêndio, libera gases altamente tóxicos.

Não existe uma formação "arquiteto de incêndio" ou "engenheiro de incêndio". Isso é uma especialidade posterior. Não existe esta formação, mas ela está sendo feita e aberta aqui para vocês. O que eu entendo de proteção e prevenção contra o incêndio desde a década de 1960 (?) vocês vão superar!
Deu exemplo do RPBa Mapele em 1962 - um incêndio num poço de Petróleo que durou uns dois anos, queimando toneladas de ar durante todo este tempo, e não se conseguia / podia estancar, como o risco de criar um acidente maior.

Introduzindo a palestra:
Vamos falar de normas. Sobretudo da NBR 9077, que trata de saídas de emergência. A proteção passiva está muito ligada à arquitetura e à engenharia, desde a definição dos materiais e na estrutura do prédio às saídas, e precisam ser pensadas antes das estratégias ativas. A gente precisa pensar nas passagens do fogo em busca de oxigênio, subindo os andares se necessário. Então precisamos isolar os ambientes com materiais chamados firestop, como lã de rocha etc.
Ele ressaltou que as normas devem ser entendidas e analisadas em conjunto com outras, percebendo a interdependência de parâmetros sutis a serem respeitados. O risco também vai se alterando ao passar do tempo. É básico, para quem vai projetar, conhecer química de fogo. Todo combustível, mesmo sólido, produz gases que são liberados quando aquecidos. É o caso da madeira.
No dia a dia, lidamos com o GLP, que não tem cheiro mas tem um produto sintético para avisar sobre o seu vazamento. O gás liquefeito é um gás pesado, que busca os pontos mais baixos, se intrometendo nas tubulações de esgoto. O GLP tem uma faixa larga de interação com o oxigênio. Se tiver uma fagulhinha, ele pega fogo, se confinar ele explode. Se tem cheiro de gás, não ligue nem desligue nenhuma switch, para evitar a mínima fagulha.
As NBRs, no geral, são basicamente copiadas das normas internacionais, geralmente da NFPA (National Fire Protection Association) e da ISO (Internaconal Organization for Standardzation). 
As normas, algumas, não são muito claras. 
A NBR 9077, ainda de 1976, é carente de revisão. O que leva à revisão das normas são interesses comerciais e industriais. Porta corta-fogo? Quem está produzindo, vai continuar produzindo. Diferentemente da norma de alarme - que percebe-se facilmente o interesse comercial por trás da confecção dos textos de atualização. 
A norma, por si só não obriga a sua utilização. A lei tem que ser criada e apontar para a Norma. Mas infelizmente, as vezes a lei não adota a norma na íntegra. Como assim? As vezes o decreto obriga os sprinklers só nos halls, corredores e garagens, ou só a partir de um determinado pavimento. A norma deveria ser obrigatória ela toda. Mas se o apartamento é onde está a origem e os combustíveis?
* Flashover - ver definição.
As normas ainda permitem interpretações diferentes, de acordo com os interesses de quem a analisa. É o sofismo, ou hermeneutica, quando se usa uma afirmativa válida para uma interpretação falsa, um desvio da interpretação. Eu diria até que é muito fácil interpretar equivocadamente, ou com intenção, a NR 9077.
O interesse comercial é reduzir custos, e não evitar mortes.
A norma diz que a partir de 30 metros de altura devemos usar uma escada enclausurada com dois dutos, de entrada e saída de ar. A partir de 15 andares, esse sistema vai perder a autonomia por causa da perda de pressão no duto. Por isto, é mais seguro o uso de escada pressurizada, com compressores, para forçar o maior volume de ar. O sistema precisa inundar todo o vazio da escada em cerca de 1 minuto, mas não pode ser grande demais para não deixar que se abra a porta, apenas para garantir que na abertura da porta a fumaça não entrará no vão da escada. Então seria ideal, independente do número de pavimentos, ter escadas pressurizadas e também elevadores pressurizados - um elevador de segurança. Toda a área de escada e de elevador seria uma área de refúgio. Para esta pressão não exceder a pressão necessária, tem que ter uma válvula de escape com um dumper (?) com gravidade no topo.
Ai a norma fala de parede para resistir 4 horas de fogo, mas a portas fabricadas no Brasil resistem 1:20h. É uma contradição!
O caminho de entrada do prédio é o mesmo de saída. Se eu tenho que fazer uma escada resistente ao fogo, para garantir que o morador do 40º andar possa descer com segurança, este mesmo caminho será de entrada para a subida da brigada de incêndio. Temos o parâmetro de 0.55m para movimentação do corpo humano e o comportamento físico sobre a movimentação de pessoas na passagem - é um princípio muito parecido com o dos fluidos: os que estão no meio passam, os que estão nas laterais sofrem mais pressão e podem estagnar. Então vem a economia, que projeta uma passagem com 1.10m - que deveria ter 1,20 com o corrimão para no final chegar ao mínimo, mas 1.10m com o corrimão fica com a passagem abaixo do mínimo. Temos que entender que estes bombeiros estarão tentando subir contra a corrente com equipamentos pesados nas costas. Essas pequenas economias podem prejudicar enormemente a efetividade de um resgate. * O elevador de emergência é necessário. Uma pessoa em cadeira de rodas não vai descer de escada.
Mesa Redonda

Halany pergunta se, em reformas, a escada externa pode substituir a necessidade de uma escada enclausurada. Várias pessoas da mesa responderam.
No caso da escada - nem sempre a escada enclausurada é a única solução. A vezes ela não é uma possibilidade. Mas você pode entrar com estratégias ativas. Numa escada externa é precito tomar muito cuidado, pois ela pode descer queimada pelas chamas e pelo calor. No caso de reformas, é preciso criatividade e trabalhar com estratégias ativas de combate.
O engenheiro Carlos, da Petrobras, ressalta:
Atenção ao "canto do diabo". Quando os prédios tem as escadas concentradas apenas em um lado ou no núcleo da edificação. Se o incêndio é no meio do corredor, quem está no canto não poderá sair. Por isto devemos ter sempre mais de uma escada e nas extremidades.
Altino:
Compartimentação é obra da arquitetura, e a compartimentação é um grande aliado.
***

No período da tarde, o arquiteto Altino apresentou a palestra introduzida no início da manhã: Incêndio e Planejamento Físico. No projeto executivo, o desenho deve:

  1. Controlar os efeitos estruturais evitando o colapso;
  2. Impedir que o alastramento seja rápido interna e externa;
  3. Impedir que seja alcançada a inflamação generalizada;
  4. Controlar a combustão para minimizar a duração e a temperatura máxima atingida;
  5. Controlar os efeitos dos subprodutos da combustão
  6. Impedir que as rotas de fuga sejam obstruídas;
  7. Facilitar a intervenção dos Bombeiros.
Professora Luciana Calixto chegou, se apresentou. Ela está coordenando esta iniciativa e está pensando em residências temáticas, inclusive em incêndio. Propus considerar em acessibilidade quando ela passou por mim.

Altino falou em município modelo. (E por que não o campus modelo?) E concluiu, apresentando e agradecendo os parceiros, sobretudo a Construir Melhor, em Valença, que irá preparar estes estagiários e colocá-los no mercado.

Rodada de perguntas da mesa para a platéia e vice-versa.
Altino falou da Fundação Mapfre.

Pedi voz:
Durante o almoço fiquei pensando nos grandes edifícios que são verdadeiros aviões. Se tudo estiver certo, é só um prédio, mas se ocorrer qualquer problema ele pode virar um avião. E ai que para projetar aviões não é qualquer graduação, não é qualquer graduado tampoco. É necessário se especializar e beber da experiência de outros mais experientes. Então alguns se especializarão - e tem que ser muitos. Mas TODOS, absolutamente TODOS precisam estar cientes de que seu prédio pode, em algum momento, se transformar em um avião. Se ele não estiver muito bem planejado para a situação de emergência, pode matar muitos. O que a gente não tem é esta noção de que podemos estar projetando aviões sem saber. 
Outro aspecto que que a nossa formação é, de fato, muito carente. Sobretudo o arquiteto ainda é levado a acreditar que está fazendo arte. Nada contra fazer uma bela arquitetura, mas antes disto arquitetura é um avião. 
Assim como há o Estatuto da Pessoa com Deficiência, que institui a obrigatoriedade da inclusão de disciplinas de acessibilidade nos cursos que atuam na construção civil, é preciso lei que regulamente o ensino de conteúdos de prevenção e combate ao incêndio. Cadê esta lei?
Um outro ponto é que, muitas vezes, os professores são pessoas que saem da graduação, fazem mestrado e doutorado e vem ensinar sem qualquer experiência profissional. Conteúdos como este, em questão, demandam experiência prática, vivência. Este conhecimento de vocês, dos bombeiros, precisa chegar na academia.
O arquiteto Carlos Diniz falou que cada escolha arquitetônica tem sua carga na contribuição para a propagação de um incêndio. A escolha do forro, do piso, dos mobiliários, da cortina, dos objetos. Cada coisa tem sua carga e precisa estar estimado conjuntamente com a edificação para se prever o comportamento daqueles ambientes e estrutura no caso de um acidente.

No debate se fez paralelo entre nossas edificações e uma fogueira.






Dinâmicas Urbanas de Interfaces e de Tempos

Dinâmicas Urbanas de Interfaces e de Tempos é uma série de vídeos sobre cidades destinada a relatar visualmente relações espaciais e temporais entre pessoas, veículos, calçadas, ruas, fachadas, atividades, paisagens. São vídeos que convidam a uma perpepção holística da mobilidade urbana, das articulações físicas e sociais que se revelam nas ruas em movimento.

dinâmica - espaço em movimento FIS (…) estuda o comportamento dos corpos em movimento e a ação das forças que produzem ou modificam seus movimentos. 1 Técnica e conjunto de procedimentos que visam estabelecer um bom nível de interação entre os membros de um grupo de pessoas a fim de alcançar o seu maior rendimento num trabalho em conjunto. 2 Estudo de como funcionam os grupos humanos em ação e de como modificar o seu comportamento, tornando-os conscientes dos motivos de suas atitudes e interações. 
interface - corpo e espaço in.ter.fa.ce sf (inter+face) 1 Superfície, plana ou não, que forma um limite comum de dois corpos ou espaços. 
tempo - momento, turnos , movimento tem.po sm (lat tempu) 2 Uma época, um lapso de tempo futuro ou passado. 7 Ocasião própria para um determinado ato; ensejo, conjuntura, oportunidade. 17 Mec Quantidade de movimento de um corpo ou sistema de corpos, medida pelo movimento de outro corpo, supondo-se que os dois movimentos são proporcionais.

Neste post serão apresentados três vídeos. O primeiro [VÍDEO 1] é uma edição própria sobre um vídeo antigo da cidade de São Francisco, EUA, filmado quatro dias antes do terremoto de abril de 1906 por Miles Brothers. O vídeo original possui quase dez minutos e retrata um espaço público urbano ativo e alegre, com elementos e interações diversificadas, personagens autônomos e singulares. Os outros dois vídeos [VÍDEO 2 e VÍDEO 3] são produções próprias, gravados nas cidades de Zurique, na Suíça, e Salvador, no Brasil.

***Por causa de problemas na formatação, os três vídeos foram relocados para o final do texto.
Você pode preferir usar os links acima e assistir diretamente no YouTube.***

Como o vídeo de São Francisco, há outros relatos urbanos com diferentes perspectivas, mas objetivos semelhantes: o de registrar a dinâmica urbanas de determinado lugar em determinado tempo. Há o vídeo de Londres na década de virada do século XX e na sequência cronológica há o de Nova Iorque, em 1928, que inclui o automóvel de forma incisiva na cena urbana, fazendo uma espécie de paródia. Veio o tempo de os automóveis tomarem os espaços públicos de circulação e isso repercutiu nessa linha da produção cinematográfica também. No vídeo de Paris, 1976, uma câmera no parachoque de um carro correndo pela cidade vazia no finalzinho da madrugada tem um desfecho inesperado – como toda boa história parisiense, essa também inclui romance. Já em 1988, Nova Iorque novamente apresenta outro relato urbano, já com uma nova configuração espacial, uma mobilidade "modernizada". Curitiba, mais recentemente, também participa dos relatos cinematográficos com um documentário que inclui vislumbres urbanos de um tempo de mudanças. Além das cenas citadinas, há a parte didática que conta a história de um processo de reorganização das funções no espaço.

Estes relatos urbanos visuais, sobretudo o vídeo adaptado acima, serviu de inspiração para os dois vídeos que seguirão, de produção própria. Um deles é uma captura de uma rua comercial em Zurique, Suíça, na chegada do verão. O outro, de uma rua comercial da cidade do Salvador, Brasil. Ambos foram gravados em meados de 2012.

Neste trabalho não há um objetivo de comparação entre as duas realidades que se apresentam – mesmo sabendo que pensamentos comparativos podem ser inevitáveis. Contudo, melhor que comparar é somar as impressões de ambos e depois deixar os questionamentos fluírem.

Antes de chegar aos vídeos pode ser relevante saber como começou este projeto, além de conhecer um pouco da cidade estrangeira que terá aqui um pedacinho revelado: Zurique.

Uma visita a Zurique

Em junho de 2012 tive a oportunidade de conhecer Zurique, capital comercial da Suíça. Antes mesmo de comprar as passagens, fiz muitas pesquisas sobre a cidade na expectativa de não me ausentar de nada que pudesse me ser interessante. Uma das primeiras coisas que descobri foi que Zurique tem uma rua comercial famosa e muito ativa chamada Bahnhofstrasse – 1.4 km de dos mais variados tipo de comércio, desde mercados e lojas de departamentos a caras lojas de jóias, relógios e designers de moda, além de hotéis de luxo. O início da Bahnhofstrasse, como se diz, é a estação ferroviária, e, no outro extremo, a paisagem se abre em uma praça para o lago de Zurique.

Apesar de não ser a capital, Zurique é a maior cidade da Suíça. E mesmo com essa titulação, ela possui menos de quatrocentos mil habitantes. Algumas pesquisas a apontam como a cidade com a melhor qualidade de vida do mundo, bem como a mais rica da Europa. Zurique é um centro misto de ferrovias, estradas e tráfego aéreo; tanto seu aeroporto quanto sua estação ferroviária estão entre os maiores e mais movimentados do país. Lá o transporte público urbano também é muito popular. Seus habitantes o utilizam largamente e o consideram a melhor forma de se deslocar pela cidade. Sua rede de transportes públicos está classificada entre as de maior densidade e frequência em todo o mundo. Seja por bondes, ônibus elétricos, barcos, funiculares ou teleféricos, os bilhetes comprados para uma viagem são válidos em todos os meios de transporte. E tem o bilhete diário, para viagens ilimitadas dentro de determinada área num período de 24h.

Era esse o bilhete que eu pegava todos os dias; cinco e oitenta francos com desconto. Comprava em qualquer ponto numa maquininha touch screen, pegava meu troco, colocava tudo na bolsa e olhava para o poste com o mostrador eletrônico para ver quanto tempo faltava para o próximo bonde de número 10 (em direção ao centro). Quando marcava muito eram cinco minutos. Quase nunca precisei sentar nos banquinhos, porque a maioria das vezes era pegar o bilhete e o bonde já mostrava a carinha lá longe. No mostrador, conferia que era meu e ficava me balançando para disfarçar o impulso de esticar o braço para o motorista parar. O bilhete, em dez dias de muitas viagens, ninguém me pediu para ver. Dizem que há fiscais, e as vezes eles entram no bonde multando em oitenta francos espertinhos ou distraídos que não estejam com seu bilhete. Certamente há pagantes o suficiente para manter o sistema funcionando. E esse sistema é fundamental para a qualidade do transporte público, que se baseia inclusive na eficiência e rapidez nas paradas pela ausência de catracas e cobradores.

Pois bem... voltemos para a Bahnhofstrasse, a principal rua de Zurique. Antes de vê-la em pessoa, assisti alguns vídeos e vi muitas fotos dela. Por causa do status de ser uma das ruas mais caras do mundo, logo pensei também na Champs-Élysées. E por causa da aparente baguncinha de gente, bicicletas, bondes, carros, pensei na nossa Avenida Sete de Setembro, em seu trecho mais intrigante: entre a Casa d'Italia e a praça Castro Alves. Essa nossa rua sempre surpreende.

Por que? Porque se tem um lugar na cidade que o pedestre encontra alguma vez é nesta rua, na Avenida Sete. Nos cruzamentos das pequenas transversais são os pedestres que determinam quando os carros podem passar, ao contrário da lógica que rege o resto da cidade. No seu leito principal nem precisa emplacar limites de velocidade: o fluxo de pedestres vazando das estreitas calçadas e passando de um lado para o outro fazem com que os motoristas reduzam a velocidade para 30 km/h ou menos, espontaneamente – ou inevitavelmente.

Na nossa Avenida Sete o medo de pequenos furtos existe, como em qualquer lugar da nossa Salvador, mas durante o horário comercial – quando o lugar é pleno de atividades de portas abertas para a rua, com seus vigilantes naturais espiando o movimento de dentro das lojas – todos parecem caminhar suficientemente relaxados. Nenhuma barbaridade, como os estupros diurnos acobertados do loteamento Aquarius, bairro de muros, são esperados numa área com tanta vitalidade.

Assim também é a Bahnhofstrasse, como a Avenida Sete. Cheia de atividades e aberturas para a rua, cheia de pedestres e veículos inesperados. Nessa versão Suíça de uma rua viva, além dos improvisos típicos da nossa terra, chamam atenção carrinhos de bebês, skates, patinetes, cadeirantes, malas com rodinhas. Um piso contínuo e liso, sem degraus ou excesso de juntas, ajudam a tornar tudo possível. Salvador, em contraste, adora um batente para delimitar o espaço de quem ou quem. Nada feito para rodinhas pequenas ou para quem precisa delas para se locomover.

Na Suíça a chegada do inverno muda tudo. A neve toma as ruas e o movimento das pessoas provavelmente fica restrito à linha mais curta possível entre a porta do bonde e a porta do destino. Mas aqui, neste início de junho, a Bahnhofstrasse estava uma festa! Simplesmente sentar num dos banquinhos verdes perpendiculares ao fluxo da rua já fez uma tarde de sexta uma das experiências mais interessantes da minha estadia.

Observe como todo o espaço público da rua é usado pelos pedestres. De tempos em tempos – ou turnos – passa um bonde, e nesse pequeno período as pessoas deixam aquele espaço livre para o bonde passar. O bonde é o rei da rua! Não porque ele se imponha nem nada, pois até sua buzina sua gentil. Mas as pessoas o respeitam e o dão passagem porque sabem que seu horário é rigoroso, pontual, e elas gostam disso, elas consomem isso! Todas elas!

O bonde, além de não poluir e fazer pouco ruído, me mostrou na prática uma outra vantagem em relação a qualquer transporte sem trilhos: seu percurso é previsível. No chão da rua há duas linhas de paralelepípedos vermelhos escuros, uma de cada lado do limite do percurso máximo do bonde. Se você está fora dessas linhas, você está seguro. Simples. Assim cada pedacinho de espaço público urbano pode ser explorado com segurança.

Há carros? Sim, há carros no centro de Zurique. Mas nessa rua sua permeabilidade é bastante restrita. O semáforo permite periodicamente a entrada de carros em uma única faixa da rua, e o tempo é curto. É possível aos carros acessar as transversais e até estacionar, mas isso custa alguns bons francos. Em geral, as pessoas de lá não recomendam ir ao centro por este meio. É estresse certo. "De bonde é muito melhor!"

Há uma outra questão que me parece pouco explorada (e muito mal praticada) por nós soteropolitanos: a relação entre os espaços públicos e privados. Essa colaboração possível e necessária entre as atividades e fluxos de dentro e de fora. O contato visual, a permeabilidade, todo o discurso de Jane Jacobs que, infelizmente, parecemos fazer questão de não aplicar.

Já Zurique, parece que aplica. As lojas se debruçam sobre o espaço público, e ao mesmo tempo o espaço público parece ser propriedade de todos, pois todos cuidam um pouquinho dele. Paredões cegos? Edifícios estanques? Não vi!

As vitrines enfeitam a rua e as árvores retribuem sombreando as vitrines no verão e caducando no inverno para deixar o calor do sol entrar. O cheiro das confeitarias e cafeterias invadem a rua, assim como suas mesinhas e cadeiras. Há travessas que não passam carros, e estas viram praças vivas. Não praças sem utilidade como tantas que conheço. Mas praças de gente passando, acumuladas, sentadas, conversando, comendo qualquer coisa num balcão, tomando água de uma das inúmeras fontes potáveis.

Em Zurique, mesmo em ruas sem essa premissa comercial, as janelas, lojinhas e vitrines são uma contante. Uso misto sempre! Malha urbana para carros e também para pedestres: quadras que se abrem no meio para o pedestre passar, reduzindo distâncias. Exemplos de permeabilidade e conectividade que discutimos na teoria mas parecemos incapazes de projetar.

Salvador, como a Avenida Sete, tem também muitas qualidades. O ano todo a rua está disponível para quem quiser por ela passar e passear. Temos veículos inusitados, sim. Veja só o carrinho de mão expandido em uma quase caminhonete de papel reciclado movida a tração humana.

As interfaces aqui são bastante complexas, se interceptam demais ou se misturam simplesmente, de um jeito que só a gente entende. Os tempos, ou turnos, praticamente não existem. Todo o tempo o espaço é de qualquer um – pedestre, carro, moto –, o que pegar primeiro.

Por outro lado, há aspectos negativos que contribuem para não estarmos na lista das melhores cidades para se viver ou melhores sistemas de transportes do mundo. Os carros parados ocupam demasiadamente o espaço, quebram a fluidez visual entre os dois lados da rua, consomem o potencial das vitrines, limitam o espaço teórico do pedestre, poluem. No nosso caso, uma calçada destacada da rua pode até ser bom. Se não houvesse o batente alto, era capaz de os carros encostarem ou entraram nas lojas para resolver seus problemas em formato drive-thru.

Contudo, toda essa tentativa de separação – calçada, batente, vala, carros estacionados – trabalhando no limite, só induz as pessoas a romper de vez as barreiras e invadir o asfalto (aquele que achavam que deveria ser para os carros). E como chegam carros, apesar de os pedestres os retardarem tanto quanto possível. O esforço é válido, mas não foi suficiente ainda para uma mudança estrutural.

Os ônibus que passam pela avenida não são reis como os bondes de Zurique. Nem príncipes, coitados. Entram no bolo das interfaces complexas e dos turnos disputadíssimos, como todo mundo por aqui. O carro, pasme, também não é rei aqui não, apesar de ficar ocupando o espaço como se fosse. Ademais a bagunça, os pedestres aqui ainda possuem algum resquício de respeito, nem que seja um respeito forçado por falta de opção. Aquela coisa do "quem pegar primeiro". Pelo menos é mais democrático!

Reflexões

Se voltarmos no tempo, em 1906, São Francisco, depois de ver a Zurique e a Salvador de 2012... O que conquistamos desde então? O que aprendemos? O que teorizamos? O que escolhemos? O que colocamos em prática?

Quais estruturas espaciais criam a rua que queremos? Misturas ordenadas ou simplesmente misturas? Tempo de todos ou turnos eficientes? Quais interfaces e tempos trazem consigo a dinâmica urbana almejada?
Qualquer projetinho de arquitetura que tenha uma face para o logradouro já é passível de fazer urbanismo.

Vamos observar antes, conceber depois. As cidades são um laboratório vivo. Experimentos ruins já fizeram moda por aqui e até hoje sofremos. A arquitetura e o urbanismo insustentáveis, frutos de um modernismo retardado, de condomínios estanques e shoppings caixotes não devem mais existir. Não se deixe iludir por fachadas bonitas.

Se for projetar, por favor, projete em favor da vitalidade, da integração! OBSERVE ANTES, CONCEBA DEPOIS. Não vamos repetir os erros que do Iguatemi, onde (sabemos bem) carro é rei, ônibus é vilão, moto é problema e gente é obstáculo. E, sim, a solução para a gente-obstáculo é pré-moldada!

***

Dinâmicas Urbanas de Interfaces e de Tempos é uma série de vídeos sobre a cidade em movimento. Capture cenas urbanas. Continue essa série! Além de servir de fonte de questionamentos, são registros de um lugar e um tempo que algum dia terão um valor inestimável, como o vídeo de São Francisco antes do terremoto de 1906. O tempo não pára, os relatos ficam.





Medidas de Mobilidade Urbana Sustentável

Essas são as Medidas de Mobilidade Urbana Sustentável - MMUS - que coletei e sintetizei de bibliografia nacional e internacional para minha pesquisa de mestrado. No meu trabalho, elas foram validadas quanto a sua aplicabilidade ao projeto e avaliação de grandes empreendimentos (Polos Geradores de Viagens). Mas, no final, elas formaram uma coletânea valiosa de ações que devem ser consideradas em projetos arquitetônicos e urbanos para se obter um desenvolvimento mais saudável e sustentável, inclusive – mas não somente – da mobilidade. Questões sociais, ambientais, de segurança e qualidade de vida estão intrínsecas em várias medidas. Com criatividade, dá para fazer muita coisa boa a partir daqui!


Baixe o PDF desse quadro. (Citar a dissertação.)